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SEM ESPERANÇA_ Por que este terror é o mais doentio dos últimos anos_

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Quantos de vocês, diante da escuridão da sala de cinema, já não sentiram um arrepio percorrer a espinha ante a mera sugestão do mal? Não o mal caricato dos monstros de borracha e do sangue xarope que abarrotaram as prateleiras das locadoras de outrora, mas o mal com eme maiúsculo, aquele mal primordial, silencioso e paciente, que não precisa de convite para entrar e que, uma vez instalado, contamina tudo ao seu redor como uma praga invisível. Neste ensaio, examino a obra de Demián Rugna que devolveu essa força ao cinema contemporâneo, e sustento que o mais perturbador nela não é a criatura, mas o vetor: a fraqueza, o egoísmo, a ignorância e, de modo decisivo, a burocracia. O demônio deste filme não precisa de portais dimensionais, ele se serve da nossa incapacidade de seguir regras simples e do pânico que invariavelmente nos leva à pior escolha possível. Percorro o pecado inaugural da narrativa, que é a negação de responsabilidade, o gesto de arrastar o problema para longe para que o problema seja de outro; a estrutura de contágio, em que o mal se propaga pela cadeia de decisões erradas e não pela geografia; e a recusa sistemática do filme em oferecer manual de exorcismo, hierarquia de proteção ou vitória do bem. Trato ainda da tradição de pessimismo filosófico com que essa visão dialoga, em que a consciência humana aparece como acidente trágico e o mal deixa de ser anomalia para se tornar norma. E não escondo a controvérsia, porque ela é legítima: há quem veja aqui obra-prima e divisor de águas, e há quem veja crueldade sem propósito. Se a porta foi aberta e ninguém sabe como fechá-la, o que exatamente sobra a fazer? Jorge Lucio de Campos
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